Matheus Portela

Quando Esparta invade a sala de aula

São poucas as vezes que encontramos pessoas corajosas o suficiente para desafiar o status quo, levantar-se contra a estrutura de um sistema, batalhar para fazer o que é certo e impactar positivamente a vida de outras pessoas.

Ricardo Fragelli é uma dessas raras personalidades. Professor de engenharia na Universidade de Brasília, Campus Gama, Fragelli percebeu que reprovar 50% da sua turma de cálculo não era uma coisa normal, apesar de muitos professores julgarem assim. Em um país onde 56% dos alunos de engenharia desistiram do curso na última década, as dificuldades começam, muitas vezes, naquela turma de cálculo 1 e se perpetuam pelo resto do curso. Era necessário fazer algo.

Apesar de improvável, foi assistindo o filme 300 que Fragelli percebeu o quão desumanizada eram as suas turmas, uma vez que os alunos buscavam única e exclusivamente a aprovação na disciplina. No filme, o rei Leônidas explica para o deficiente Ephialtes porque não poderia convocá-lo para o exército espartano: a força dos 300 vem da sua capacidade de ser uma unidade impenetrável uma vez que cada soldado protege o seu companheiro à esquerda. Um único ponto fraco era o suficiente para derrubar todo o batalhão.

“Your father should have taught you how our phalanx works. We fight as a single, impenetrable unit. That is the source of our strength. Each Spartan protects the man to his left from thigh to neck with his shield. A single weak spot and the phalanx shatters. From thigh to neck, Ephialtes.” - Rei Leônidas

300

Baseado nessa frase, Fragelli decidiu revolucionar a sua forma de ensinar. Contando com a ajuda de alunos veteranos na disciplina, formou-se um corpo discente de 300 alunos ao todo. O método é simples: os alunos que obtivessem uma nota baixa em alguma prova tinham o direito de refazê-la com uma condição: juntar-se em grupo com outros alunos - que foram bem e que foram mal, além de veteranos - e preparar-se para o novo teste. Os alunos que tiraram boas notas, por sua vez, poderiam aumentá-las se os seus companheiros conseguissem recuperar o desempenho.

As consequências de uma metodologia no qual os alunos preocupam-se mais com os outros do que consigo mesmos são extremamente positivas: taxa de aprovação na disciplina em torno de 85%, participação dos alunos em atividades extracurriculares, humanização na sala de aula e aumento no interesse dos alunos pela ciência. A coragem de um professor que decidiu inovar e mudar a sua forma de ensino para uma forma não-convencional já impactou a vida de centenas de alunos que passaram pela sua sala de aula.

Tive a honra de assistir à palestra de Ricardo Fragelli no TEDx Universidade de Brasília e compartilho, abaixo, o vídeo para que você também possa se inspirar e fazer a diferença. Ao professor, ficam aqui os meus sinceros agradecimentos por ser um pioneiro na educação brasileira.

“Considerando o quadro geral de notas, nós verificamos que, hoje em dia, deixar de fazer os 300 seria um erro.” - Ricardo Fragelli